Os meus cabelos brancos e a vulnerabilidade

Encontrei uma amiga numa conferência no último sábado e, depois de contar para ela algumas questões particulares que ando tendo com a escrita e a publicação dos meus textos aqui no blog, ela me perguntou: mas e os cabelos brancos você tingiu? (como estávamos num lugar escuro, não dava para enxergar direito o meu cabelo).

Pois é, faz tempo que não venho aqui falar dos meus cabelos brancos. Mas já adianto que eles continuam aqui e estão cada vez mais brancos. Confesso, porém, que tenho me sentido mais e mais tentada a tingi-los. Não só porque eles estão aparecendo muito, mas também porque sempre amei brincar com o meu cabelo, encontrando para ele cortes e cores diferentes. Por enquanto, porém, sigo firme no propósito de assumi-lo como ele está.

 

WhatsApp Image 2017-11-14 at 12.41.15 PM
Como ele está

Mas o que os meus cabelos brancos têm me feito pensar é sobre vulnerabilidade, assunto de grande interesse da pesquisadora norte-americana Brené Brown (a Carol já escreveu um post ótimo sobre o assunto, citando a Brené Brown, inclusive). Basicamente, a teoria dela considera a vulnerabilidade como uma força disponível aos seres humanos, para construir entre eles uma conexão verdadeira. Ou seja, quanto mais suas vulnerabilidades (aqui você pode substituir o termo por fraquezas) se tornam acessíveis, mais as pessoas irão se identificar com você e mais irão querer se aproximar de você, porque se sentirão acolhidas, uma vez que elas têm as mesmas vulnerabilidades ou vulnerabilidades semelhantes às suas. Como consequência, essa ligação entre as pessoas se torna um canal de cura.

Confesso que gosto muito dessa ideia, mesmo porque sinto falta de conexões verdadeiras com as pessoas. Me farto de fórmulas prontas, de máscaras, de pessoas lindas e cheirosas, que não têm defeito algum ou que estão sempre na fase “pós-defeito”, ou seja, aquilo que elas tinham de vulnerável já foi superado sempre quando você conversa com elas.

Ao mesmo tempo, fico me perguntando se entregar o ouro assim, a qualquer pessoa, de fato me fará livre. Meu medo se justifica justamente por minha vulnerabilidade mais superficial e visível: o branco dos meus cabelos. Outro dia eu estava comemorando o aniversário do meu filho com algumas pessoas e ouvi uma delas se referindo a uma outra, que nem estava lá, como “coitada”, justamente porque a pessoa estava começando a ter cabelos brancos. Fiquei espantada com o comentário e me indaguei se elas ignoravam por completo a minha presença ali – eu com os meus cabelos brancos – ou se falaram aquilo para que eu me tocasse e quem sabe resolvesse tingir os meus cabelos, me tornando, assim, menos coitada.

De uma forma ou de outra, concluí que as pessoas não estão assim tão prontas para acolher as vulnerabilidades umas das outras.  Ao assumir a vulnerabilidade da minha finitude por meio dos meus cabelos, eu automaticamente assinei a declaração de que sou uma perdedora para essas pessoas. Estou admitindo, para quem assim acredita, que me entreguei ao tempo, que estou me deixando envelhecer e ser ultrapassada por pessoas mais novas do que eu. Os cabelos brancos se tornam, portanto, uma bandeira pregada no alto da minha cabeça, anunciando para quem quiser a vulnerabilidade de todos nós, a fraqueza que ninguém quer assumir, o tabu dos tabus: eu estou mais perto da morte do que muitos outros.

Só por esse meu simples caso dos cabelos brancos, já dá para perceber a intolerância das pessoas frente às vulnerabilidades umas das outras. Mas e quando a vulnerabilidade de alguém não é tão simples assim? Como acolhê-la? É aí que eu acho que a teoria da Brené Brown pode ser insuficiente. Se não estivermos cercados de pessoas realmente interessadas em nosso bem, que se preocupem com o destino de nossas almas, que nos amem profundamente, abrir nossos quartos escuros pode ser o nosso fim, infelizmente. Expor para quem quiser ouvir que, muitas vezes, somos manipuladoras, que agimos de forma discriminatória com pessoas com determinadas características, que somos emocionalmente infiéis aos nossos cônjuges ou que somos viciadas em mentiras, aí o papo é outro. O público geral irá receber essas vulnerabilidades de braços abertos, sim, mas não para as acolher, mas para julgá-las, condená-las ou passá-las adiante em forma de gordas fofocas.

Até o momento, não tenho me importado de ser rotulada como coitada por ostentar uma cabeleira reluzente, mas não sei até quando. Também já fui mais fundo, deixando que quartos escuros em mim fossem escancarados ao público, o que me custou parte da minha saúde – por esses caminhos de superexposição não trilho mais. Onde encontrar, portanto, um refúgio para a nossa alma, onde ela descanse verdadeiramente, sem os sustos e a canseira de manter as aparências? Falo a partir da minha experiência: o meu descanso tem vindo do Senhor. Conto para Ele quais são as minhas vulnerabilidades mais recônditas e como não dou conta delas e, então, leio: Ele [o Senhor] te cobre com as suas penas e debaixo das suas asas encontras refúgio (Salmo 91.4). Ele me perdoa e me oferece a força Dele. Sigo em frente, pronta para encarar – e entregar a Ele – a próxima vulnerabilidade.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência

O poder da vulnerabilidade

Ilustração de Kathrin Honesta

A vulnerabilidade expõe nossa total incapacidade, fraqueza e por que não dizer nudez da alma. Escancara nossas limitações e defeitos. Por vezes, ela se aproveita disso para nos estimular a ir contra quem verdadeiramente somos. Para construir uma identidade baseada em um modelo de vida e ideais que não nos pertencem. Não são nossos.

Mas convenhamos, realmente não é nada confortável revelar nossos medos, vontades e desejos mais profundos – entregando tudo isso de bandeja aos outros. É preciso muita coragem para demonstrar nosso verdadeiro eu e tornar-se passível de críticas, apontamentos, e quem sabe até daquela exclusão social básica.

Resolvi usar para o título deste post, o mesmo título desse vídeo de Brené Brown que está no TED1. Ele foi indicado pelo Nathan em nosso último Grupo de Convivência Maricota (ok, o nome Maricota pode não passar muita credibilidade, mas nós somos um grupo legal e maduro, acreditem! rs) de nossa comunidade de fé Projeto 242. E fiquei extremamente grata por esse tema vir a mim, de novo! Como um tiro certeiro, nesse momento de vida, tanto as reflexões do vídeo como as discussões que afloraram do nosso grupo sobre esse tema, mexeram comigo e ainda estão reverberando aqui: dentro de mim.

Analisando meus últimos anos, em especial esses últimos 3 anos, percebo como Cristo tem me convidado, com um amor abundante, a sair de minha zona de conforto – que nem sempre é tão confortável assim – e tem me ensinado a assumir e acolher minha pequenez, minha finitude, minha v-u-l-n-e-r-a-b-i-l-i-d-a-d-e. Pois é… Essa palavrinha já me incomodou tanto! E erroneamente eu acreditei que ser vulnerável era sinônimo de ser boba. Que o certo mesmo era não demonstrar fraqueza nenhuma e sempre, seja qual for a circunstância, manter a pose e ser forte. Sempre! Mas que força é essa que te deixa em frangalhos internamente ou que anestesia teus sentimentos em prol de uma reputação que definitivamente você não pode controlar?! Que força é essa que só traz e produz inquietação, insegurança e instabilidade?

Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco, é que sou forte.
2 Coríntios 12.10

Porém, uma palavrinha que tem sido peça-chave para todo esse processo de ressignificação que tenho enfrentado é o acolhimento. Estou aprendendo a acolher quem sou e como sou. A me aceitar, a compreender minhas falhas sim, e a buscar mudanças para o que carece ser mudado, mas sobretudo tenho compreendido minha importância no mundo. Sou única e por mais defeitos que eu tenha fui desejada e sou uma filha amada.

Fizeste-nos para ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em ti.
Santo Agostinho – Confissões

Que Deus me ajude a continuar trilhando o estreito caminho da pequenez, das limitações e das fraquezas pois só assim saberei que minha força, minha verdadeira força, não provém de mim, ela passa por mim e transborda mas provém dEle que é a minha fonte de energia e de verdadeiro poder.

 

. . . . . .

1TED são aqueles vídeos curtinhos (de 15 a 20 minutos) e temáticos, de acordo com cada encontro. A plataforma é um mundo de opções, têm muita coisa legal e muitos deles são extremamente inspiradores! Vale a pena dar uma sapeada: www.ted.com

2Grupo de Convivência são grupos pequenos de estudo da Bíblia e convivência dos membros da igreja Projeto 242: www.facebook.com/projeto242

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O outro nome da força

Shira Sela_Healing
Healing –Ilustração da artista Shira Sela

 

Sempre pensei na vulnerabilidade como sinônimo de insegurança, fraqueza, instabilidade. Uma pessoa vulnerável é aquela coitada, desprotegida, fraca, sempre olhada com desdém por quem está perto e provocando risadinhas e comentários maldosos naqueles que identificam suas vulnerabilidades. Já conheceu alguém assim? Eu já conheci várias pessoas assim, mas quero falar de uma específica. Li a sua história e ela está mudando totalmente a minha ideia de que a vulnerabilidade deve ser repelida a qualquer custo.

O nome da pessoa não é revelado, mas é uma mulher que descobriu onde Jesus ia jantar, entrou na casa da pessoa que o convidou, encontrou Jesus lá e ficou chorando aos pés dele. Ela chorou tanto, mas tanto, que os pés de Jesus ficaram molhados com as lágrimas dela. E sabe como ela fez para secá-los? Usou os cabelos. Depois, passou nos pés dele um perfume caro que ela guardava num frasco mais caro ainda e depois beijou os pés de Jesus. Essa história está na Bíblia, num livro chamado Lucas, no capítulo sete e o verso em que a história começa é o 36.

Agora me digam: querem uma cena de vulnerabilidade mais explícita do que essa?? Com essa atitude, a mulher da história está passando para nós algumas mensagens bem interessantes:

– De que ela é autêntica. Ela não fingiu ser o que não era para agradar os que estavam em volta, nem mesmo Jesus. O anfitrião que o convidou para jantar chegou até a pensar: “Se Jesus soubesse quem essa mulher é, ele nem deixaria que ela o tocasse” (verso 39). Claro que Jesus sabia quem ela era, porque não era bobo, porque era bem informado e porque era Deus.

– De que ela é real. O anfitrião a chamou de pecadora no pensamento dele (verso 39). Mas me respondam: quem não é pecador?? Nós passamos horas criando um perfil para convencer os outros de que somos lindos, cheirosos, inteligentes, bem-sucedidos, de que temos um amor à nossa disposição e que somos felizes o tempo todo, sem interrupção. Mas aí entra na sala a pessoa vulnerável e nos incomoda. Ela tem questões psicológicas, ainda não conseguiu se formar, não tem dinheiro para um happy hour todos os dias, tem um filho de um cara que não quis nada com ela e não consegue parar de fumar. Essa pessoa é tão real, que é quase um espelho de nós mesmos.

– De que ela é humana. A mulher não teve medo, nem vergonha de chorar. Se era por tristeza, arrependimento ou o que fosse, ela estava ali, mostrando que não podia mais guardar o que se passava dentro dela.

– De que ela é livre. A pessoa vulnerável não precisa mentir, nem se amoldar a um rótulo que se queira colocar nela. A mulher não tinha nada a esconder, as pessoas a conheciam como “pecadora”, mas ela não estava preocupada com isso. Ela queria alcançar a Graça e nada do que dissessem sobre ela poderia impedi-la de chegar até o seu objetivo.

– De que ela está aberta para a cura. Isso a gente descobre quando Jesus se dirige a ela e diz que todos os pecados dela estavam perdoados, de que a fé que ela tinha a salvara e que ela podia ir em paz (versos 48 e 50). É revigorante quando percebemos que não estamos sozinhos com os nossos vícios e as nossas angústias e, mais ainda, que não seremos julgados, mas curados. Um dia desses pratiquei a vulnerabilidade para sentir que gosto tinha. Uma amiga me perguntou pelo Whatsapp se estava tudo bem comigo e eu respondi que não, e contei para ela, da forma mais direta e transparente possível, o que se passava. Tivemos uma conversa ótima e, no final, eu saí consolada e leve. Foi libertador.

Sim, eu estava errada. Paradoxalmente, a vulnerabilidade tem muito mais a ver com força do que julgavam os meus dicionários internos. Quero me habituar a buscá-la, a tocar minhas próprias feridas, a aceitar que sou esta e não outra, que aqueles com quem convivo – e principalmente, as crianças a quem ensino – são eles e não outros. Quero que a vulnerabilidade me una a outros tão humanos quanto eu, que ela revele a mim quem eu sou de fato e que me aproxime de Jesus com o mesmo desprendimento que teve a mulher da história. Então serei livre de mim mesma, de minha própria hipocrisia, dos meus julgamentos, da minha autossuficiência, do meu orgulho, que são, no fim das contas, os meus mais profundos pecados e a minha verdadeira fraqueza.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.